A comunidade da boa solidão


Vivemos um momento especial de conectividade, de simultaneidade, de participação na vida alheia, onde tudo acontece à medida que se queira - mesmo que esse querer seja induzido por dopaminas. Há uma sensação diária de liberdade, de poder chegar a qualquer um, a qualquer parte e de alguma maneira "triunfar". 


Um tempo particular de "comunidade", uma comunidade virtual que se estende através de comentarismos, de postagens, de ritmo intenso de todos se expressando, de uma revelação continua e transparente dos nossos cotidianos e intimidades.


Se no território virtual estamos escancarados, por outro lado, vivemos um momento em que medimos exatamente a distância de um toque alheio em nossas vidas concretas, em nossa casa, em nosso campo e corpo. As câmeras estão devidamente apontadas na garagem. Nossos bens correm perigo, vidas. E fazemos bem em impor limites. Mas a faca tem dois gumes, diria vovó. 


Entre querer milhares de seguidores e ninguem na nossa porta, não parecemos entender isso de "ganhar a vida usando as redes" e "socialismo encarnado e corajoso". O que alcançamos a muito esforço foi essa querida pseudo comunidade planetária que tentamos vesti-la, mas ela está cheia de furos e não esquenta no frio. Uma falsa segurança de jogar videogame com a vida, em vez de viverla.


Somemos a esse cenário uma angústia particular de fim dos tempos, da natureza reclamando seus equilíbrios. Estamos quase em uma síndrome de avestruz, onde a toca é a web.

Mais que uma comunidade forjada pela vontade de vivermos juntos, preferimos adotar uma que nos foi dada pelos algoritmos e pelas castas modernas disponíveis conforme privilégios+dom+caráter:  influencers, beteros, coachs, monetizadores, techs, neoreligiosos, nepobabys, sertanejos sem sertão, deliveries, negociadores piramidais, rurais engravatados, dealers, educadores, desdocumentados, jurisprudentes, estelionatarios de whatsapp, funcionários públicos estáveis, vizinhos, academicools, clts, artistas famintas, migrantes, pseudojornalistas, jornalistas, legisladores e matadores de democracias, depentes de editais, resilientes climáticos, orginários, artesãos sem mercado, os sem-ongs, mesadistas, ongueros, herdeiros, ambulantes, comuneros tradicionais, ladrões de galinhas, matasonhos, desviadores de recursos, feirantes, poetas, banqueiros digitais, ecohorteros, muamberos, necropolíticos, humoristas, esportistas, etc.


Nesse atual panorama social - se por um lado nas redes busca-se todas as raízes do mundo, por outro, nunca foi tão difícil estar no presente enraizado com o outro. 


É muito difícil receber alguém desconhecido para tomar um café simplesmente, é muito difícil que alguém chegue na nossa casa para tomar um café com pão e dali ver surgir algo novo como antigo.  Os caminho afetivos parecem traçados pelas redes, mapas cognitivos pré arranjados - não se chega a um encontro marcado ou espontâneo como se chegava, com frescor na alma.


Experimente tirar o celular de todos os envolvidos em um evento para ver o que resta- o registro das imagens ganhou um espaço entre nós, como um deus moderno exigente - a busca pelo mistério da experiência vai perdendo espaço, a busca pelo arrebatamento do agora foi tomada por uma prestação de contas continua - contarei isso nas redes ou não vivi. Um tempo não-arte, um tempo-pornografico diria Campbell, aquele que nao tem Enlevo poético, epifanía. Nos 90 as pessoas riam dos japoneses tirando fotos com nikons onde viajávam. Era um desperate andar por toda parte registrando.


Parece que buscamos o universal, mas essa tendência ao grandioso, a abarcar e sermos imensos, se restringe a uma imensidão apenas de imagens, likes e quantidade de informação.

Essa busca falsa do outro nos atrofia o agora, a capacidade instintiva do querer, a cortesia de abrir uma porta ao outro, nosso instante ao outro, porque essa porta está fechada mesmo.

O "real" por segurança, não reflete o expansionismo digital, está cheio de medo da invasão do que chega e de tantas coisas que justamente a conectividade nos revelou- todos os detalhes da desgraça humana.

Esses dias postaram no grupo do bairro: carro vermelho assaltando. Acendi os alertas. Passado umas horas, queria postar que estou vendendo alfaces. Titubiei. E se os assaltantes vem atrás dos alfaces. Mas só por rebeldia, convidei os vizinhos a virem, abri a porteira. E por sorte uma veio, arrancou os pés e ainda levou uma salsa.


Hoje vemos tudo de mal ao mesmo tempo. Mas ver tanto de todos nos cegou algo.


Nesse ambiente virtual - que ja se parece a um corpo relacional humano unificado- estamos a pleno com nossos corpos, nossos desejos, buscando sobreviver,  comunicar para ganhar na informalidade algum pix, manter-nos "aguerridos" ao grupo, e pela pressa de não perder o bonde cedemos aos designs da IA, e queremos não apenas monetizar, mas também encantar atrás de algum tipo de like mesmo que "revolucionario". Até contas anarquistas vivem de produzir conteúdo. Não é uma crítica particular, mas uma constatação da arbitariedade tamanha do virtual. É um imenso território.

Rural, florestas, crianças, artistas tomados, eros tomado, e ainda queremos um impulsionamento, que é um termo interessante: que algo nos impulsione para frente, para todos.

Ser famoso ou - que alcançemos o ponto superado, o todavia-não, o tempo livre.

Ao agora nos resta o engajar. Em outros tempos, ser engajado era algo bem diferente.


Ser lembrado na areia, vender nosso peixe esquálido

E ao fim que? Cada um busca, nesse debate, nesse duelo de aura, reverberar no coração do outro, ser lembrado, porque nesse tempo arenoso tudo se vai no instante,  e em areias movediças sussurramos "eu aqui ó". 

Mas você pode postar a coisa mais interessante ou calamitosa nas redes que isso desaparece em questão de segundos da nossa memória coletiva. 

Porque estão/estamos apagando nossas memórias com o excesso de imagens - e calamidades. E estamos perdendo a capacidade de conter.

A comunidade - guardiã da memória - que antes amparava em conversas físicas, em rodas, fazia algo fundamental, ajudava a perdurar certos acontecimentos, gerava um recôncavo, um abraço temporal para uma situação decantar. E esta comunidade, estas comunidades, estão sendo atravessadas por essa dinâmica de comunicação arenosa e desritmica, em que nós falamos e depois não escutamos, todos emitem sinais sem parar. A falsa escuta deteriora o tecido do que se une em profundidade. É como a criação de um hospício a céu aberto.


O grupo de zap do bairro, o grupo das notícias, das famílias, não consegue conter. Conter quer dizer - promover a qualidade de encontro em profundidado para algo se converter de informaçao em compreensão individual ou coletiva. Se funcionam como pontes ao real, funcionam, se iludem que todos Já estao em contato, perdemos. E não conseguimos mais sair da matrix.

Entramos no tempo da Matrix em cheio e esse tempo criou suas redomas desritimcas entre as pessoas. Dance a trend ou morra. Orbitem pequeníssima bolhas desconectadas das outras. Voce ja reparou como o Instagram pune os "pequenos grupos" a ficarem restritos a eles mesmos. Enquanto espalha conteúdos amorficos para a totalidade dos membros. Muitas vezes feito com fórmulas aditivas de IA.


Da solidão-separação

Como líquido envolto em pele buscando caminhos fáceis, as pessoas não querem mais ser coletivo no integral da palavra... fogem dos problemas de uma maneira muito compreensivel (quem os quer?) E hoje é possivel mais que nunca evitar o outro - mas também ao fugir dos problemas por desgosto, preguiça social, medo de ser rejeitado,por simplesmente preferir estar com quem a gente gosta, estamos criando um entramado cheio de fissuras que nao se nota a olho nu. Mas se sente. Há muita gente faltando aqui. Não estamos em contato. Falta uma cor. Um tom. Faltam muitos, muitas. E mais falta Sentido, Horizonte, utopia compartida.

Não digo que temos que forçar estar com pessoas que temos ojeriza. No meu caso, sionistas, fascistas etc... Mas manter viva a utopia de que o ser humano é bom. Está bem a frase Fogo nos fascistas. Mas seguro o querido Chico falou de queimar o símbolo e pensamento que atrapa essas pessoas. A libertação humana, não extermínio.

Criar um ponto de intercessão que permita que um bolsonarista exprima seu lado delicado e ocorra o que o poeta Carlos Mestre falou em, encontro de "iguais", "poeta é o que vê um igual em todos" e tudo - a utopia de nao exigirmos que pensem como nós, mas que haja por instantes, convergências, ressonâncias e se abram contradições no discurso de ódio- seja qual for - abrindo brechas para a apreciação do humano. 

Mas entendo, estamos cansados de além de oprimidas e oprimidos, pensar em salvar o mundo, tentar criar uma comunidade real - já estamos suficientemente rechazados e perseguidos - perdemos para a falsidade do digital e aceitamos o que nos oferecem. 

Resigno, logo existo.


Estamos sós nus com nossas músicas? Sobre a boa solidão

Mas estar só é o recomeço.

Há a boa solidão, a que ensina o indígena, esta em contra da solidão multidudinal.

Os guaranis são assim, são chamados de fechados e você vai no cotidiano peruano, e ali se fala do mistério do aberto e do fechado. Tem momento que se está aberto e tem momento que está fechado. Parece bobo, mas não é. É um respeito. cada dia é claroscuro, dá e recebe. O natural è assim. Um gato é assim. Deus parece ser assim, pendula entre a indiferença e a proximidade da Graça. Nada é toda hora disponivel, 24h, só o irreal.

Vemos esse tempo agonizante nos estabelecimentos que estão 24 horas abertos e as pessoas que estão 24 horas disponíveis para os outros online. 

Agora você olha a vida prática das pessoas, estamos muito mais fechados no campo do real, talvez para compensar tanta abertura no campo das redes, as pessoas se encontram mais restritas, habitando menos o público, no sentido do que esse público poderia ser antes: abertura, disponibilidade ao encontro casual, ali aconteceria o inesperado,  um encontro, arrebatamento místico com o instante. 

Há demais um medo-cansaço de socializar em profundidade: melhor seguir com as frases de bom dia boa noite. Há muito o que perder se me veem desde outros ângulos.


O fogo


Ter-que-postar para estar vivo reduziu a experiência do relato a uma via viciosa de comunicação. A chispa antes era transmitida no boca a boca irrompendo, repente nordestino. E vamos nos acostumando a não transmitir a chispa em conversas, nem a búsca-la nos outros. Mornos. As palavras se esvaziam pelo valor burguês da segurança. No virtual qualquer coisa que digas será usado contra você. E também acontece do que supostamente aconteceu no real ser levado ao virtual e ocorrer os cancelamentos. 


Existem muito mais regras e rigidezes de convivência hoje por questão de proteção, por menos espontaneidade possivel, fomentadas justamente pelos vicios digitais. 

Há muito mais reguladores sociais. Enquanto que os campos do digital estao quase todos monitorados por empresas, a praça real ainda é livre. A montanha, a rua. E a liberdade a que me refiro é o espaço singelo onde a Maravilha pode incindir sobre um coracao humano. Livre de reatividade automatizadas e palavras engatadas em resultados.

Voltando aos hermanos originarios, desses aprendi que instintivamente/ancestralmente se sabe sobre abrir e fecharse ao outro.. uma corazonada,  uma Intuição, uma leitura corpórea. Para não viber em uma exaustão e um medo generalizado: que me assaltem, e todas as gamas de violência a partir do Encontro.

Uma boa solidão te permitiria estar nos ambientes realmente inspiradores e de nergia vital. O oposto da relação tóxica - com outros e com a Terra. A boa solidão nutre uma comunidade inteira.

Solidão criativa, onde se chama a comunidade para renascer outra vez, no vazio reencontrado.

Estar com a vida e o que ela traz é a boa solidão. 

Estar offline e aguentar a crise por dopamina é boa solidão.

Suportar o contraditorio no outro, o outro, as mazelas do Nós é parte de evitarmos soluções simplórias e perversas como xenofobia, fascismo, que justamente se baseia na intolerância ao diferente, na morte da pedra no sapato.

Comunidade amortece e não age por manada, sente junto, pondera, debate, com membros esperanzados com a possibilidade humana, abertos ao transumano, aos imaginários, ao imenso, ao pátio, com recolhimento no coração, e o livre arbítrio dos seus abrires e fechares.  Somos Quereres ritmicos. Contradição. Buscar a beleza da totalidade do outro é achar a nossa mesma. 

Comunidade segue sendo parte do mesmo pêndulo da solidão.

Mas comunidade ou será dada - por máquinas e reações químicas - ou será pechada, invoada, sonhada como velhas utopias.



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La comunidad de la buena soledad



Vivimos un momento especial de conectividad, de simultaneidad, de participación en la vida de los demás, donde todo sucede según nuestros deseos, incluso si estos son inducidos por la dopamina. A diario se experimenta una sensación de libertad, de poder llegar a cualquiera, en cualquier lugar, y de alguna manera «triunfar». 




Un momento particular de "comunidad", una comunidad virtual que se extiende a través de comentarios, publicaciones, un ritmo intenso de expresión colectiva, una revelación continua y transparente de nuestra vida cotidiana e intimidades.




Si bien en el mundo virtual somos completamente abiertos, vivimos en un momento donde medimos con precisión la distancia del contacto físico ajeno en nuestras vidas reales: en nuestros hogares, en nuestros campos, en nuestros cuerpos. Las cámaras apuntan al garaje. Nuestras pertenencias están en peligro, nuestras vidas también. Y hacemos bien en establecer límites. Pero, como diría la abuela, todo es falso. 




Entre querer miles de seguidores y no tener a nadie a la puerta, parece que no entendemos eso de "ganarse la vida con las redes sociales" y el "socialismo valiente y encarnado". Lo que hemos logrado con mucho esfuerzo es esta querida comunidad pseudoplanetaria que intentamos aparentar ser, pero está llena de agujeros y no nos protege del frío. Una falsa sensación de seguridad, jugando a videojuegos con la vida en lugar de vivirla.




Añadamos a este escenario una particular ansiedad por el fin de los tiempos, con la naturaleza recuperando su equilibrio. Casi nos encontramos en un estado de avestruz, donde la madriguera es la red.


Más que una comunidad forjada por la voluntad de vivir juntos, preferimos adoptar una que nos dan los algoritmos y las castas modernas disponibles según el privilegio + talento + carácter: influencers, lectores beta, entrenadores, monetizadores, tecnólogos, figuras neorreligiosas, nepobabies, cantantes de country sin patria, repartidores, negociadores de esquemas piramidales, trabajadores rurales trajeados, comerciantes, educadores, personas indocumentadas, juristas, estafadores de WhatsApp, empleados públicos estables, vecinos, académicos, empleados de CLT, artistas hambrientos, migrantes, pseudoperiodistas, periodistas, legisladores y asesinos de democracias, dependientes de subvenciones, personas resilientes al clima, pueblos indígenas, artesanos sin mercado, los no-ONG, miembros de los medios de comunicación, trabajadores de ONG, herederos, vendedores ambulantes, comuneros tradicionales, ladrones de pollos, asesinos de sueños, malversadores, vendedores de mercado, poetas, banqueros digitales, ecohorticultores, contrabandistas. necropolíticos, humoristas, atletas, etc.




En el panorama social actual, mientras que por un lado buscamos todas las raíces del mundo en las redes sociales, por otro lado, nunca ha sido tan difícil estar arraigados en el presente con los demás. 




Es muy difícil invitar a un desconocido a tomar un café sin más; es muy difícil que alguien venga a nuestra casa a tomar café y pan y que de ello surja algo nuevo, además de algo viejo. Los caminos emocionales parecen trazarse mediante redes, mapas cognitivos preestablecidos; uno ya no llega a un encuentro, ya sea planeado o espontáneo, con la misma frescura de antes.




Intenta quitarles los celulares a todos los involucrados en un evento para ver qué queda: la grabación de imágenes ha ganado un espacio entre nosotros, como un dios moderno exigente; la búsqueda del misterio de la experiencia está perdiendo terreno, la búsqueda del éxtasis del momento presente ha sido superada por un recuento continuo: ¿contaré esto en las redes sociales o no lo viví? Un tiempo sin arte, un tiempo pornográfico, diría Campbell, uno que no tiene éxtasis poético, ni epifanía. En los 90, la gente se reía de los japoneses que tomaban fotos con Nikons dondequiera que viajaban. Era un caminar desesperado por todas partes, registrando.




Parece que buscamos lo universal , pero esta tendencia hacia lo grandioso, hacia lo abarcador y lo inmenso, se limita a una inmensidad de imágenes, "me gusta" y cantidad de información.


Esta falsa búsqueda del otro atrofia nuestro momento presente, nuestra capacidad instintiva de deseo, la cortesía de abrir una puerta al otro, nuestro momento al otro, porque esa puerta en realidad está cerrada.


El mundo "real", por razones de seguridad, no refleja el expansionismo digital; está plagado de miedo a la intrusión de lo que está por venir y a tantas cosas que la conectividad nos ha revelado: todos los detalles de la desgracia humana.


El otro día alguien publicó en el grupo del vecindario: «Un coche rojo está robando a la gente». Eso me alarmó. Unas horas después, quise anunciar que vendía lechugas. Dudé. ¿Y si los ladrones venían a por ellas? Pero, por pura rebeldía, invité a los vecinos y abrí la puerta. Y, por suerte, uno de ellos vino, arrancó las lechugas y hasta se llevó un poco de perejil.




Hoy vemos todas las cosas malas a la vez. Pero ver tanto de todos nos ha cegado ante algo.




En este entorno virtual —que ya se asemeja a un cuerpo relacional humano unificado— estamos plenamente presentes con nuestros cuerpos, nuestros deseos, buscando sobrevivir, comunicarnos para ganar dinero informalmente, mantenernos "combativos" para el grupo, y en la prisa por no perder el tren, sucumbimos a los diseños de la IA, y queremos no solo monetizar, sino también encantar en busca de algún tipo de "me gusta", incluso uno "revolucionario". Incluso las cuentas anarquistas viven de producir contenido. Esto no es una crítica personal, sino una observación de la inmensa arbitrariedad del mundo virtual. Es un territorio vasto.


Las zonas rurales, los bosques, los niños, los artistas se han apoderado de todo, Eros se ha apoderado de todo, y aún así seguimos queriendo un impulso, que es un término interesante: algo que nos impulse hacia adelante, para todos.


Ser famoso o - que alcancemos el punto superado, el no-pero, el tiempo libre.


Por ahora, lo único que nos queda es involucrarnos. En otros tiempos, involucrarse significaba algo muy distinto.




Para ser recordados en la arena, para vender nuestro escaso pescado.


¿Y al final, qué? Cada uno busca, en este debate, en este duelo de auras, resonar en el corazón del otro, ser recordado, porque en este tiempo traicionero todo se desvanece en un instante, y en arenas movedizas susurramos "aquí estoy". 


Pero puedes publicar en las redes sociales la cosa más interesante o catastrófica y desaparecerá de nuestra memoria colectiva en cuestión de segundos. 


Porque estamos borrando nuestros recuerdos con un exceso de imágenes y calamidades. Y estamos perdiendo la capacidad de contenerlas.


La comunidad —guardiana de la memoria— que antaño ofrecía apoyo mediante conversaciones presenciales y encuentros, cumplía una función fundamental: contribuía a perpetuar ciertos acontecimientos, creando un respiro, un abrazo temporal para que la situación se estabilizara. Y esta comunidad, estas comunidades, están siendo atravesadas por esta dinámica de comunicación irregular y caótica, en la que hablamos y luego no escuchamos, todos emitiendo señales sin cesar. Esta falsa escucha deteriora el tejido de lo que nos une en profundidad. Es como crear un manicomio al aire libre.




El grupo de WhatsApp del vecindario, el grupo de noticias, el grupo familiar: no pueden contenerlo. Contenerlo significa promover encuentros profundos y de calidad para que la información se transforme en comprensión individual o colectiva. Si funcionan como puentes hacia la realidad, funcionan; si se engañan creyendo que todos ya están en contacto, perdemos. Y ya no podemos escapar de la matriz.


Hemos entrado de lleno en la era Matrix, y esta era ha creado sus propias burbujas caóticas entre las personas. Baila al ritmo de la moda o muere. Orbitan en diminutas burbujas desconectadas entre sí. ¿Te has dado cuenta de cómo Instagram castiga a los "grupos pequeños" restringiéndolos a su propio espacio, mientras difunde contenido indefinido a todos sus miembros? A menudo, esto se logra mediante fórmulas de IA aditivas.




De la soledad-separación


Como un líquido atrapado en una piel que busca caminos fáciles, la gente ya no quiere ser colectiva en el sentido pleno de la palabra... huyen de los problemas de una manera muy comprensible (¿quién los quiere?). Y hoy es más posible que nunca evitar al otro; pero también, al huir de los problemas por antipatía, pereza social, miedo al rechazo o simplemente por preferir estar con quienes nos agradan, estamos creando una red llena de fisuras que no se notan a simple vista. Pero se sienten. Falta mucha gente aquí. No estamos en contacto. Falta un color. Un tono. Faltan muchas cosas. Y aún más falta el significado, el horizonte, la utopía compartida.


No digo que debamos obligarnos a estar con gente que despreciamos. En mi caso, sionistas, fascistas, etc. Sino que debemos mantener viva la utopía de que los seres humanos son buenos. La frase «Fuego contra los fascistas» es acertada. Pero estoy seguro de que el querido Chico Buarque hablaba de quemar el símbolo y el pensamiento que los obstaculiza. Liberación humana, no exterminio.


Crear un punto de intersección que permita a un partidario de Bolsonaro expresar su lado sensible y que ocurra lo que mencionó el poeta Carlos Mestre: un encuentro de "iguales", "un poeta es aquel que ve un igual en todos", y todo: la utopía de no exigir que piensen como nosotros, sino que existan, por momentos, convergencias, resonancias y contradicciones en el discurso de odio, sea cual sea, abriendo espacios para la apreciación de lo humano. 


Pero lo entiendo, estamos cansados ​​de ser oprimidos y oprimidos, de pensar en salvar el mundo, de intentar crear una comunidad real; ya somos rechazados y perseguidos lo suficiente; cedemos ante la falsedad del mundo digital y aceptamos lo que se nos ofrece. 


Renuncio, existo.




¿Estamos solos, desnudos, con nuestra música? Sobre una sana soledad.


Pero estar solo es un nuevo comienzo.


Existe un tipo de soledad positiva, la que enseñan los pueblos indígenas, que es lo opuesto a la soledad multidudinal.


Los guaraníes son así; se les llama reservados, y uno se adentra en la vida cotidiana peruana y allí hablan del misterio de la apertura y el cierre. Hay momentos en que uno está abierto y momentos en que está cerrado. Parece una tontería, pero no lo es. Es una cuestión de respeto. Cada día es claroscuro, dar y recibir. Así es la naturaleza. Un gato es así. Dios parece ser así, oscilando entre la indiferencia y la cercanía de la Gracia. Nada está disponible todo el tiempo, las 24 horas del día, solo lo irreal.


Vemos este momento angustioso en establecimientos que están abiertos las 24 horas del día y en personas que están disponibles para otros en línea las 24 horas del día. 


Ahora, si observamos la vida práctica de las personas, vemos que estamos mucho más cerrados en el ámbito de la realidad, quizás para compensar la gran apertura que existe en el ámbito de las redes. La gente se siente más restringida, frecuentando menos la esfera pública, en el sentido de lo que esa esfera pública pudo haber sido antes: apertura, disponibilidad para encuentros casuales, donde ocurría lo inesperado, una reunión, un éxtasis místico con el momento. 


Hay demasiado miedo y cansancio ante la socialización profunda: es mejor limitarse a los saludos de buenos días y buenas noches. Hay demasiado que perder si me ves desde otros ángulos.




El fuego




La necesidad de publicar para sobrevivir ha reducido la experiencia de contar historias a un círculo vicioso de comunicación. La chispa solía transmitirse de boca en boca, surgiendo como una explosión repentina desde el noreste de Brasil. Y nos estamos acostumbrando a no transmitir esa chispa en las conversaciones, ni a buscarla en los demás. Nos volvemos tibios. Las palabras se vacían por el valor burgués de la seguridad. En el mundo virtual, todo lo que digas se usará en tu contra. Y también sucede que lo que supuestamente ocurrió en la vida real se traslada al mundo virtual, lo que lleva a cancelaciones. 




Hoy en día, la convivencia está marcada por muchas más normas y rigideces con fines de protección, lo que minimiza la espontaneidad, fomentada precisamente por las adicciones digitales. 


Existen muchos más reguladores sociales. Si bien el ámbito digital está prácticamente controlado por empresas, el espacio público real sigue siendo libre. La montaña, la calle. Y la libertad a la que me refiero es ese espacio sencillo donde la maravilla puede conmover un corazón humano. Libre de la reactividad automatizada y de palabras condicionadas a los resultados.


Al regresar a mis ancestros, aprendí que, instintivamente, uno sabe cómo abrirse y cerrarse al otro... una conexión profunda, una intuición, una lectura corporal. Para no vibrar de agotamiento y un miedo generalizado: a ser agredido y a todas las formas de violencia que puedan surgir del encuentro.


La soledad saludable te permite estar en entornos verdaderamente inspiradores, llenos de energía vital. Es lo opuesto a una relación tóxica, tanto con los demás como con la Tierra. La soledad saludable nutre a toda una comunidad.


Soledad creativa, donde la comunidad está llamada a renacer una vez más, en el vacío redescubierto.


Estar presente con la vida y lo que trae consigo es una buena forma de soledad. 


Estar desconectado y experimentar la descarga de dopamina es una buena forma de soledad.


Tolerar la contradicción en el otro, en el otro, en los males del "nosotros", es parte de evitar soluciones simplistas y perversas como la xenofobia y el fascismo, que se basan precisamente en la intolerancia a la diferencia, en matar la piedrecita en el zapato.


La comunidad se suaviza y no actúa como un rebaño; siente junta, reflexiona, debate, con miembros esperanzados en las posibilidades humanas, abiertos a lo transhumano, a lo imaginario, a lo inmenso, al patio, con recuerdos en sus corazones y la libre voluntad de sus aperturas y cierres. Somos deseos rítmicos. Contradicción. Buscar la belleza de la totalidad del otro es encontrar la nuestra. 


La comunidad sigue formando parte del mismo péndulo de la soledad.


Pero la comunidad será o bien creada —mediante máquinas y reacciones químicas— o bien será imperfecta, inventada, soñada como las antiguas utopías.




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