a barca do reino do sol
A barca havia afundado há anos. ninguém mais lembrava daquelas tabuas velhas, remos improvisados e ladainhas para o sol. Alguma memoria ainda se tinha da alegria das crianças pelas aguas, as saudações de pirata e o sonho que a pequena embarcação voasse. mas ela não voou, e sim, teve um fim trágico. Todos sabem.
constam nos registros dos autos dos reinos da época que o afogamento da barca ocorreu perto da ilha de Beltane. Numa noite de inverno, onde não sabiam bem porque, mas o fogo que traziam as tripulantes caiu nas aguas e perderam a guia, batendo nas pedras.
primeiro saltaram os ratinhos, como sempre acontece. depois voaram os bufões enfadados. As sereias que haviam ganhado pernas voltaram ao mar para cantar aos navegantes. Os piratas que andavam amansados por poemas, saltaram logo ao ver que os tesouros conquistados se perdiam nas ondas, entre as sílabas da Palavra Perdida.
os que já ha tempos tinham saudades da terra firme, não hesitaram em dizer que "nem eram das águas mesmo".
os banqueiros, os contadores, os dorianas, os javalís, evacuaram assim que sentiram as aguas nos bolsos.
a professoras de escola, as enfermeiras seguraram os timões firme, mas não puderam com os ventos fortes da noite, já estavam cansadas.
algumas tábuas ainda resistiam como uma espécie de jangada. E ali estavam as crianças.
tremendo de frio, buscavam uns aos outros com uma lanterna feita de vagalumes por tutú. luchin iluminava refletindo as estrelas com um pequeno espelho. Rudá gritava forte para guiar com som o resgate dos amigos. E Valentim era quem saltava nas águas pra buscar os afogados.
As crianças que há tempos sonhavam em voar tiveram a difícil tarefa de atravessar a noite.
Dois ou três adultos persistiram junto a pequena barca. Não se sabe bem por que mas foram os guardadores de sementes que não puderam abandonar suas bebês e permaneceram. Levavam bolsas de sementes de todas partes da terra. Haviam gastado anos, epópeias para cultivá-las e guarda-las e não seria por conta de um desvario que abandonariam seus sonhos ajardinados. Permaneceram com os pequenos.
Aportaram numa terra deserta, depois de uma madrugada infinita.
Foram acolhidos por senhoras, que há anos cuidavam casinhas de taipa sem ninguém dentro. Esperavam o retorno do messias São Sebastião, aquele do velho canudos. Todos lhes diziam estavam loucas, elas nem davam bola e seguiam com as velas acesas.
Quando viram as crianças molhadas, sabiam que eram eles, um deles tinha o próprio nome do santo. Esquentaram seus pézinhos. Deram sopa de coentro. Estenderam ao sol suas roupas. E deram caminhas para cada um.
Os pquenos não sabiam onde estavam, a língua desse lugar era português misturado com todas as línguas do mundo. Cora deu nome de língua salada mista.
Mas as velhinhas falavam pouco. Onde viviam tinha uma placa de madeira antiga, pintada de cores mal pintadas "Reino do Sol". E Chuchi havia chegado a conclusão que estavam no lugar certo.
Ali voltariam a trabalhar.
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