Ultimos da espécie

 Convivo hoje com os últimos de uma espécie. Um ser humanl...desconectado.

Alguem involucrado na vida real que nao foi tragado pelos tentàculos digitais, nenhum desejo lhe causou as redes, nem nada. Nem quando ele falou em comprar um cavalo, sua paixão, eu sem me dar conta do que fazia, lhe falei que nas redes hoje se vende cavalo, ele me olhou, mas nem isso lhe atravessou. Depois que percebi, impávido e sereno. Esperá seu cavalo chegar por outras vias. Percebi o quao livre e solitario esta esse homem no lado que todos ja deixaram pra tras. Uma década atras ele vive simultaneamente a todos.

Meu amigo não tem pix, e só tem celular pra assuntos de "chamar para um serviço". Nem sequer responde os whatsapps. Quando lhe envio algo, tudo bem ahi? Ele vem atè em casa responder. Com as botas, com alguma fruta do pé, com a linguagem tradicional do bem querer. 

Nenhuma conversa, entre nós, é sobre as redes, quase zero política. Assuntos vao entre "as coisas da vida', jargões da existência, sabedoria do crescimento das plantas e dos animais e alguma polêmica do bairro que compartimos.

Nao faltam tão as vicisitudes que acontecem. Ele sempre ta em um perrengue frente ao mundo. Algum documento faltando,um desencsixe. Mas claro...

Nosso tempo passa entre piadas e conversas no trabalho. As opiniões dele parecem ser como nasciam antigamente - sem rede social, sem manada. Ele escuta dos outros, as ansiedades dos vizinhos, o que as redes os fazem e responde com sua cabeça e olhar critico. Sempre tem algo próprio.

- eu acho que política é assim. Tentam hoje me dizer que as coisas estão ruim. As coisas nao estao ruim. Gente falando que estão prendendo as pessoas nesse país. Eu acho que ora se alguem fez algo errado, tem que prender. Essas pessoas estao querendo fazer algo errado e não ser presa. ( e entendi que estirpe de linhagem política vinha dos amigos dele).

O interessante é meu amigo se tornar aos poucos um ponto de referência de sanidade mental e conexão com a vida enquanto todos vão sendo levados por fluxos de "inconsciente dos dias", onde as pessoas entram nas redes e perdem noção do tempo e as referências. Ele tem todas as referências reais. Prefere vaca e bizerro a fantasias.

O tempo de plantar o pêssego, a lua de plantar a cebola - eh a minguante - o custo de serviço que é fazer uma casa com as próprias maos, o valor de fazer as coisas "direitinho". A parede se se pinta errado fica crespa. Eu queria anotar tudo. É pureza viva.

Eu olho pra ele e nao tem um ar de desatenção nesse ser. Tem alguém presente. Uau. A que ponto chegamos.... o tesouro da vida como andam dizendo é a presença...calma e desconectada. 

Nunca fazendo um vídeo para depois, nunca tirando self, nunca um simulacro. Ali, simples e tranquilo. Fazendo qualquer coisa com as mãos. Andando, percebendo o céu, os animais. Comentarios sobre a nobreza das pessoas.

Ele é do tipo que faz a roça cuida os animais cuida o filho adolescente que é ja é maior más está totalmente imerso nas redes. Ele ali. Fazendo de tudo. Salvando vacas de veterinários que só tem diplo a e não sabem nada da vida. Disse que um veio e abraçou ele. Fez a vaca emprenhar depois de ano do cara tentando remédios. Simplesmente ficou do lado do ato sexual com o boi e quando chunga, ele jogou um balde de agua fría na vaca. Ele me explicou que assim ela em vez de renegar as coisas do touro, fechou o Útero e foi.

Aprendo da madeira pra lenha, o segredo dos pessegos doces, o veneno dos venenos, as historias de sua mãe curandeira. Aprendo do silencio que ele faz e quando fala muito quando precisa. È solitário nesse mundo de ausentes.

Fazer uma horta juntos nos une. É uma amizade simples , é uma ancora pra mim. Esses dias elogiou nossa santinha guadalupe. E falou do santuário que tem aqui perto dedicado a ela. E disse que desde que colocaram o santuário aqui na redondeza, as coisas comecaram a ficar bem, ate os ventos que antes vinha como tornado acalmaram. É a santa ela protege muito.


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