Últimos da espécie
Convivo hoje com os últimos de uma espécie. Um ser humano desconectado.
Alguem involucrado na vida real, que não foi tragado pelos tentáculos, nenhum desejo lhe causou as redes, nem nada. Nem quando ele falou em comprar um cavalo, sua paixão, eu sem me dar conta do que fazia, lhe falei que nas redes hoje se vende cavalo, ele me olhou, e nem isso lhe atravessou. Depois que percebi, impávido e sereno. Esperará seu cavalo chegar por outras vias. Percebi o quão livre e solitário esta esse homem no lado que todos já deixaram pra trás.
Uma década atrás ele vive simultaneamente a todos.
Meu amigo não tem pix, e só tem celular pra assuntos de "chamar para um serviço". Nem sequer responde os audios. Quando lhe envio algo, tudo bem ahi? Ele vem até em casa responder. Com as botas, com alguma fruta do pé, com a linguagem tradicional do bem querer.
Nenhuma conversa, entre nós, é sobre as redes. Assuntos vão entre "as coisas da vida', jargões da existência, o crescimento das plantas e dos animais e alguma polêmica do bairro que compartimos.
Não faltam vicissitudes. Ele sempre está em um perrengue frente ao mundo. Algum documento, um desencaixe.
Nosso tempo passa entre piadas e conversas. As opiniões dele parecem ser como nasciam antigamente - sem rede social, sem manada. Ele escuta os outros, as ansiedades, os vizinhos, o que as redes os fazem com eles e responde com sua cabeça e olhar. Sempre tem algo próprio.
O interessante é meu amigo se tornar aos poucos um ponto de referência de sanidade mental, enquanto todos vão sendo levados, entramos nas redes e perdemos noção do tempo e das referências. Ele tem todas as referências reais. Prefere vaca e bezerro, a fantasias.
O tempo de plantar o pêssego, a lua de plantar a cebola - eh a minguante - o custo de serviço que é fazer uma casa com as próprias mãos, o valor de fazer as coisas "direitinho". A parede se se pinta errado fica crespa. Eu queria anotar tudo.
Eu olho pra ele e não tem um ar de desatenção ali. Tem alguém presente. A que ponto chegamos.... o tesouro da vida como andam dizendo é a presença...
Nunca fazendo um vídeo para depois, nunca tirando self, nunca um simulacro. Ali, simples e tranquilo. Fazendo qualquer coisa com as mãos. Andando, percebendo o céu, os animais.
Comentário sobre a nobreza das pessoas.
Ele é do tipo que faz a roça, cuida os animais, cuida o filho adolescente que é já é maior más está totalmente nas redes. Ele ali. Fazendo de tudo. Salvando vacas de veterinários que só tem diploma a e não sabem nada da vida.
Disse que um veio e abraçou ele. Fez a vaca emprenhar depois de ano do cara tentando remédios. Simplesmente ficou do lado do ato sexual da vaca e do boi e quando chunga, ele jogou um balde de agua fria na vaca. Ele me explicou que assim ela, em vez de renegar as coisas do touro, fechou o Útero.
Aprendo da madeira pra lenha, o segredo dos pêssegos doces, o veneno dos venenos, as historias de sua mãe curandeira. Aprendo do silencio que ele faz e quando fala muito quando precisa. È solitário nesse mundo de ausências.
Fazer uma horta juntos nos une. É uma amizade simples. Esses dias elogiou nossa santinha guadalupe. E falou do santuário que tem aqui perto dedicado a ela. E disse que desde que colocaram o santuário aqui na redondeza, as coisas começaram a ficar bem, até os ventos que antes vinham como tornado acalmaram. É a santa ela protege muito. disse.
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