cemitério imaginário
Quando eu fiz 7 anos consegui me mudar para uma escola do bairro e deixar de ter que frequentar o centro. Não gostava daquela escola outra, longe e com gente urbana. Nosso bairro era simples e virginal ainda. Minha escolinha nova era bonita e ficava ao lado de um cemitério.
Esses cemitérios de cidade pequena. Era tão bonito e florido, que não dava medo. Eu subia na goiabeira da escola pra olhar ele. E as vezes até pulava pro outro lado pra buscar a bola que escapava no recreio.
O cemitério era um bom amigo. Não me incomodava, o centro, cheio de gente, era muito pior.
O centro era onde minha mãe passava o dia pra trabalhar, dentro do shopping, e esse era um monstro cheio de tentáculos que não a deixava voltar pra casa e passarmos muitos dias juntas.
Ao contrário das outras crianças eu não gostava de shopping. Jà o cemitério não me assustava, era pequeno e aberto. De sol a sol permanecia com suas flores e sua distância respeitosa, dessas que sentimos frente a pessoas de muita idade.
A rua do cemitério (como a chamávamos) era também a rua semi asfaltada que dava pra andar de patins, ali tinha um campinho de futebol. Era a rua tranquila e depois na minha adolescência se tornou a rua onde menos a especulação mobiliaria incomodou, porque as pessoas não queriam viver perto de um cemitério.
Elas não sabiam que esse era diferente. Era todo bonito, como a igrejinha do alto do morro, como as velhinhas do bairro com seus azulejos açorianos. E ali se podia sentir que as pessoas descansavam em paz.
Do cemitério se podia enxergar a mata chegando na lagoa e suas dunas.
Peço licença, para hoje nessa distinta noite, chamar o senhor coveiro, meio coveiro meio pescador, para abrir um buraco rodeado de flores naturais e tambèm algumas de plástico - para não ofender os hábitos catarinas.
Hoje irei enterrar, para ficar em paz no outro lado, no fértil negro polo de deus, alguns muerticos, como diria uma amiga colombiana.
Vamos ä lista dos defuntos. Coloco no querido buraco:
- as caixinhas de coleção de cigarro que roubei da amiga Tulipa. - esse pode morrer em paz. Há dias confessei enfim para a dona, a lembrei do causo, ela ria, pedi as devidas desculpas pela minha delinquência dos 8 anos. Essas caixinhas de gudan pesavam!
- uma calcinha que enterrei na areia e que ainda me atordoa a memória, quando tive diarreia brincando com os amiguinhos nas dunas e não sabia que fazer e meti na areia. Precisa ser enterrada melhor.
- a inveja que senti - pelo papai Noel por dar um carrinho de controle remoto pra minha prima que nem sequer gostava disso.
- a sensação de quase ir para não sei onde se vai quando se vai, ao afundar no mar, e um surfista que me puxou os cabelos. Hoje enterro o sal que ficou no corpo depois de quase morrer com 9 verões apenas.
- o beijo que dei num menino que eu não gostava e o beijo que nunca dei em uma amiga porque achava que era demais aquilo. Enterro junto um ditado que ouvia até ficar grande" só não pode mulher com mulher que dá jacaré." Enterro esse jacaré.
- Mas não enterro o jacaré do é o tchan e apesar de enterrar todos as popozudices que me atordoavam a infância, deixo o axé que me fazia subir na mesa da sala e sonhar com a Ilha do Sol. Enterro o medo de ser vista dançando axé, enterro mais as desalegrias, para deixar as alegrias mais leves.
Coveiro aumenta a boca da noite.
- à cova os medos da noite, mas mais ainda os medos dos cantares na escola cedinho, quando diziam palavras feias que nenhuma pessoa deveria ouvir, eu ouvi bem.
- enterro as noites de espera pelo que não sabia esperava, as noites frias que faltaram historinhas e minha mãe cantando Hi Lili Hi Lo..
- enterro a nota de 10 reais que achei uma vez na rua, porque desde então não achei mais nenhuma nota.
Enterro as espinhas da adolescência, quando parecem os problemas adultos hoje, quanto mais apertava, mais brotavam. Também o cara que me paquerou tocando "tatuagem". Era mentira.
Enterro os piolhos que agarrei das crianças, e a noite quando me disseram Piolhenta, enquanto riam.
Vai se juntando a terra e as folhas caídas, o esterco e as sementes...
Enterro tantas noites mal encaixadas quando me inventei adulta, todos os desencontros com eros, porque os beijos bem dados seguem vivos como fogos vivos.
Enterro os desvios do alvo, os medos de dizer Sim, de arriscar e acender as entranhas um dos outros.
Enterro o leite e o mel. A beleza da dor. E o horror da surpresa dos sem-amor-na-alma, que as vezes vem nos revelar partes do mistério onde estamos meditos.
Os gestos frios dos amigos que se retiraram da palavra amigo. Adentro da terra fértil.
Enterro os gestos dos peitos frios, mas jamais o fogo dos encontros, e os brilhos da alma.
Enterro muitas palavras feias... que não são feias, mas se tornaram na boca de quem as usou pra matar o amor.
Enterro as armas brancas e o poder de quem recebeu um coração, quem viu sua alma desnuda e depois se levantou, se vestiu e negou tudo diante dos caçadores de animais silvestres.
Enterro o engano do caminho. E caminhos interrompidos.
Enterro as distancias fictícias que são como fantasmas.
E às vezes que negociei o que sabia ser o justo e bonito... quando trai a que fui.
Senhor coveiro.. por hoje está bem.. a terra tem que dar conta. Obrigada, pode fechar e ir pescar.
Tudo tapadinho, agora a noite estrelada dos anos 90. As flores do sul. O cheiro da ilha, o barulho da lagoa batendo na encosta lentamente, algum sotaque manézinho pela rua, o passo de saída o portão enguiçado e velho.
Caminho rumo ao morro verde e escuro. Ali na mata há uma casa onde as pessoas renascem se reunindo na beira da rua para conversar, sonhar e começar mais algum esconde esconde que terminará em beijo.

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