Noturno
Que missão teria um pássaro noturno? - começou Pina.
Olhem fixo esse ponto, esse prego fixo, deixa a sensação de que esse-prego-é-tudo aparecer.
Você é esse prego.
Vamos, olhe fixamente, deixe de ser agora mesquinho, escolhe o prego, experimente, agudo, cravado na carne... da madeira, odioso de ter que meter-se.
Agora simplesmente frio, indiferente, sustentando a construção. Você sabe, nunca relativo, preciso. Seu sentido depende disso. Pregar. Não se faça de Deus misericordioso agora, sabemos que quer cravar. Sinta o ódio da insegurança de, de repente, estar equivocado!
Levante sua ideia, no corpo. Fica aí, olhe no olho do outro que aparecer, fica aí, não devolva a mácula, não lhe atribua nada, você é esse prego, e pregar é o único que te alivia a alma.
Agora está bem.
Volta
Deixa a mão se soltar.
Você é um pássaro noturno.
Esse pássaro que não bica, não fere, não canta, nada, no frio da margem de um galho, esfumaçado, simplesmente aninhado na madrugada. Protegido
pelo instinto, sem voos, noturno como a floresta.
Sua memória se mistura ao canto do grilo. Você não é mais exato, nunca foste. Nem lembra, nem
esquece, se alguém tem uma dúvida agora, depois que comente, você, criança,
depois. Agora os adultos, agora o indivíduo com sua desgraça, o canto do
abismo, o prólogo da grande morte.
Quero ver o mergulho no mar antes
do mergulho na cama dos desejos, onde os adultos entram sempre
desnudos, buscando o nascimento no abraço de quem os deixará.
Soltem qualquer articulação compulsória, que pobre é a arte sem abandono.
Vamos. Nunca fomos só eu ou você, e agora é a hora. Na noite sempre sabemos das coisas, sem precisar dizer, dancem. São 3 da manhã avançando.. aquela hora submersa. Seu peito prendeu o ar. Seu sucesso do pequeno dia, dos pequenos Sims não serviram pra nada diante do devorador dos dias.
Você sabe que nada é bem assim, por isso dança. Que estavas inteira em muitas das noites solitárias. Nas escolhas difíceis. Você sabe que erraste foi é por paixão. Que na sua veia, a paixão é um oceano, um não caber. Não queres caber. Vamos. Continue sem olhar reto. Oblíquo. Mais. Deixa que saia a noite de ti, amamenta os seres noturnos que esperam que a guerra acabe, que as orgias dos átomos exalem.
Não há presa nem predador, não há como escapar. Dancem! As coisas estão calmas no furor do giro da terra no escuro. Aqui é onde as revelações não se vão. Daqui ninguém escapa e somos ou todos prisioneiros ou todos liberados.
Cadê teu gesto que não quer acertar?
Cadê a adoração mais pura? Onde pregar, ser prego, é nem se quer relevante, não funciona na agua, não enfia, não sustenta, o mar corrói e carrega.
Ninguém ficou pra trás, não precisa lembrar de nada, estão todos aqui contigo, olhe ao redor sem focar, deixa essa porta aberta. Somos o que ninguém pode fechar.
Esse amor que prometeste febril, estavas certa, estavas sem trocadilhos, sem brincadeiras bobas, estavas translúcida e vagando no que não estava, mas seria.
Agora que não precisas despertar, nem sequer resistir, o canto te levou a nenhuma categoria. Joga as mãos para trás. Agora encontra, de costas, outra mão. Toquem-se, isso, vejam com as pontas dos dedos, tateiem no escuro o que deixaste cair no caminho e amas.
Olhe para ninguém. De a volta como uma vertebra do invertebrado, uma célula
do inanimado, um verso da paralisia.
Eu quem estive detrás de cada vontade encoberta... detrás de cada vontade encoberta... Aí ergueste sempre o mesmo passo em cada tempo. Eu quem estive quando o palestino foi crucificado, eu quem estive no olhar desesperado do zelo, no pavor, na promessa de uma amante...
Mas não deixe que esse Eu te desate mil dragões, estás onde tudo nem se quer começou. Antes do abismo assustar, depois do mundo terminar, quando todos terão que ver o paraíso depois da morte e lavar as louças.
O sangue e o orvalho. A pluma ainda. O peixe
indomável ainda. A relva deitada no vento e o vento deitado no olhar do homem.
Parem na palavra homem, olhe para esse senhor, agonizado em
sua carne que apodrece viva, dancem o seu sangue que deseja a vida. Olhe para seu
olhar perdido como o seu, ele agora é sua concordância, sua sepultura, ele irá para onde ninguém foi. Está a caminho, lentamente iremos como ele sem dar as
mãos, abandonados como ele, fiéis ao cruel espasmo de não saber como amparar. Ninguém
nunca soube ajudar alguém a partir. Dancem o amparo impossível.
O calor da tarde de verão se foi, está fresco, essa senhora
que pariu vidas e nunca soube por quê, agora está de volta ao seu casto desejo
de existir desejada pelo mistério.
Essa adolescente que nunca quis ser desconhecida, nem conhecida,
nunca deu chance para o real pavor, se escondeu aflita em
tudo que era brilhante, o medo da infância lhe persegue, não saiu de casa ainda,
não quer sair para lugar algum, ao mesmo tempo, sintamos todos, o desespero pela
liberdade lhe toma, lhe faz delirar em sonhos, em bocas, línguas, em poemas que
não levam a lugar nenhum, porque ela não quer ir, não quer fugir do que arde.
Essa que fala, olhem a indagação insinuante de quem ensina o passo que não é o bastante...
Olhem para quem ensina perecendo, leva o fardo de
conduzir ao escuro quando todos esperam que o conhecido vença.
A notícia mais nova será a mais cobiçada na hora dos testemunhos
de que há vida apesar disso tudo.
"Onde o engano se enganou" é a mesma frase que acompanha o
corajoso e o covarde.
O lado da história é irrelevante nas noites quentes tomadas de mosquitos.
O princípio e o fim são nosso único território.
Agora abramos um círculo
Vamos dar um abraço nos ombros como se nossos corpos formassem uma muralha obliqua e não tivesse ninguém fora desse círculo, que por um instante nesse abraço coubesse os que já se foram e os que virão.
Vamos incluir o que não se pode nomear, sempre. Vamos nem se quer olhar para quem falta, porque antes de faltar já abraçamos, oblíquos. Envesado, sem travas línguas, sem subterfúgios. Deus, e o sem deus, e também os que estão apenas retumbam seus peitos na margem.
As margens são mais numerosas
que os centros, abraçamos sem pretensão, sem medo, sem nada, como os girassóis tombam
sem luz, como os adictos tombam sem nicotina, ou sem celular.
Agora
Soltemos as mãos, e deitados para trás nos resta ver o céu da
noite, se ela inteira descer em sereno, se alguma mão tocar a sua, se uma
memoria se levantar antes que você, deixe-a correr.
A memória tende a levantar-se antes de nós...

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