Óbvio outono
de novo no antro das obviedades.
Aí está o ser humano com sua miséria.
Os preâmbulos todos arrodeiam falsas noticias
e todos os caminhos levam a algum vício.
Como nessa casa, termino segurando esse retangular metal envidraçado tateando palavras iluminadas... buscando desaparecidos.
Nem sequer redondo para apontar para lua ou para a alma.
Abro a porta para escutar mais forte a chuva.
O outono era romântico no verão. Vinha das inclinações, agora empapa.
Amanhã saberei se estou grávida. Depois disso saberei se algum trem me esqueceu. Sábado saberei se as contas fecharão as portas na minha cara. Domingo comerei o bolo de terra com flores do quintal da vó Noemia. Segunda recomeçarei as preocupadas ginásticas do sério.
Já esqueci trejeitos de quem se foi, já guardei mais reticencias na cadeira vazia.
Nenhuma chuva levou o que tinha que levar dessa terra.
Os que precisavam naufragar dos seus gigantes castelos estão bem enfadados e protegidos. A sabedoria se mudou outra vez de casa e abandonou alguma religião. A mulher que me olhou há 10 anos atrás em Cusco, não se lembra que existo. Entre as ardências da memória, a luz é dominante e presságios felizes venceram.
Nenhum breu pode com os gnomos da bota de barro que minha mãe me deu no canto da lagoa.
E sobre ela, ainda recebo cartas modernas da minha mãe. Ela escreve rápido e parece dar um abraço apertado e logo soltar.
Meu pai escreve ainda mais sucinto, mas seu abraço é longo e para dentro.
Nascer é uma opção tardia. Carece de precedentes. Não se sabe como se cozinha a alma na carne, só se sabe que a carne é quente e busca fogos. Ninguém nasce e desce aos infernos. Aos 3 anos não sabemos o que é isso. Jesus soube não na cruz, mas quando perdeu naquela noite os amigos. O inferno caricato se desmancha como algodão doce nessa chuva real.
O inferno real é o abandono de todos que amaste e de uma só vez.
E o inferno é leve se há uma bagunça de crianças no horizonte.
Lamento não ver mais a rebeldia nos sonhos dos meninos, agora contam os dígitos nas suas capsulas não inventadas...agora que uma bruxa em uma floresta não comove nem assusta, que deveria acontecer para que queiram subir as montanhas?
Me engano tanto, o mar das aparências insiste em mostrar-se como praia. E na praia esquecemos das montanhas.
Ontem vi seu rosto em uma folha, estavas encolhido como um animal dormido, era uma folha caída, amarelo, parecia um feijão. Você era esse bebê crescendo no amarelo.
E o amarelo envelhecido é amigo das memorias doces de Morungaba.

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