O olhar de Nina

 

Nina quando a vi pela primeira vez estava no quarto de um cara que ela não amava, mas se amaram toda a noite naquela noite, enquanto eu contava números numa planilha de excel.

Obviamente a música do seu quarto era mais interessante que aquelas somas e subtrações que fazia com uma amiga e ríamos só com os olhos, imaginando o outro cômodo.

Lembro do olhar que tinha ao entrar na casa ainda pela tarde, ela era mais alta que ele, ele mais velho que ela. Nina me olhou tão fundo que eu não sabia se de repente ela havia me visto, como quase ninguem faz. Fiquei tão mexida com aquilo, que eles entraram no quarto e depois disso eu estava com ela. Só ele vinha, pegava garrafas de vinho, mas escutava o timbre de sua voz grave ao fundo.

Se vivessemos perto, era o justo fogo para uma paixão. Mas ela não morava nessa cidade.

Apenas estava de passagem. Turista era muito pouco para o que o corpo dela exalava. Ela passava como um vento noturno.

No dia seguinte, por estranheza das sincronias, ele foi trabalhar e minha anfitriã também, e ficamos horas as duas juntas, como visitas preenchendo o vazio.

Lembro que comecei a perguntar do seu país e quanto mais ela falava, e sustentava a mirada mais eu entendia a Alemanha por trás da  Alemanha.  Ela me olhava. 

As mulheres alemãs sustentam a vida estática nos olhos. Enquanto falávamos de Cortázar, Garcia Marquez, eu ia percebendo o milagre daquele momento e não poderia nunca explicar a ela, que ela era uma pessoa atraente. Estava intensamente interessada pela paisagem fria e sincera que tinha atrás de su dor comedida..

Nina se foi pela noite.

O paquera dela na mesa de jantar comentou que ela queria ter passado a noite nós três... Mas Nina não falou nada. Não exalou nada. Seu erotismo era tão escondido, que talvez por isso era intrigante e causava essa sensação de absorção que perdura nos anos. 

Ainda me lembro como ela olhava ao despeir-se e ao falar dos livros de Latinoamerica. Uma amante..nossa. 

As miradas são essa busca... as miradas seguem nos olhando dentro, sem olhos e sem mais explicações que o fogo que exibem nas noites solitárias dos encontros ainda sem alma...

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