Chuchu ou um diário das coisas oferecidas





Hoje um pássaro entrou na casa interrompendo um pensamento e me olhou sem susto.

Oferecido..depois veio o chuchu.  um chuchu dependurado na janela. Não sei o que fazer com ele. Magriti saberia, mas eu não. Um chuchu verde com ramas verdes, com uma moldura quente e a luz.  

Os caracóis das suas ramas são fortes e o sustentam como um exemplar da espécie perfeito... para que?  

Ser devorado, semeado. Toda natureza recai sobre esse assunto, mas eu não o quero deseternizá-lo assim.

Eu não quero comê-lo.

Quero vê-lo na janela. Quero vê-lo assim encaixando no laranja, arredondado e dócil.

Algum dia comeremos o chuchu, mas não saberia dizer como isso aconteceria, se seremos capazes.


Os grilos da noite envolvem o chuchu agora e ele descansa.


Há muitas dessas coisas oferecidas e sem desfecho. 


A cadelinha se oferece, todos seus gestos são um idioma refinado. A maneira que dobra a pata, a maneira que oferece a barriga ou as costas. As costas é quando recusa comida que não gosta. 

as coisas oferecidas umas às outras, se provocam.

As plantas crescem com podas duras, e não gostam de água demais. Gostam de sol, dramatizam caídas quando está seco. Isso fazem as alfavacas e as marias sem vergonha. As suculentas são molhadas só por dentro.

A horta gosta de água, mas é devorada pelos pássaros imensos que andam por aqui como reis e rainhas na alvorada. Os arapuãs, os jacus e as galinhas silvestres... a horta fica acuada e se oferece.

Os tucanos já são vistos se atracando nos caquis...com essas cores laranjas, já logo sabemos porquê.

Os lagartos se foram. Esses não se entregam assim aos outonos.

A lua passeia entre as nuvens e uma cadeira solitária a observa enquanto dormimos cedo.

O vento é forte e passa mais por um lado da campana. Muitas vezes me atordoa a cabeça e baixo até o chão fugindo das rajadas.

Ali onde os pássaros voam fácil é o canal que eleva... a tenda do viveiro se mexe toda buscando ajuda...está em alto mar. Sempre soube.

As casinhas tem suas personalidades, e agora nasceu uma na arvore. ainda me vem a voz entre as marteladas. Chuchi agarrando a tinta e pintando as paredes, bagunçadamente, me dizendo " é assim mesmo, pra saberem que é das crianças essa casa".

A comida fala...deveríamos comer tudo isso que sobra..amendoim, batadas, aboboras, mas acho que no campo é assim, ela diz que sobra mesmo, pra gente ter que dar e não precisar comer tudo rápido.- Guarda um pouco, oferece muito.

Já escuto os lenheiros preparando dia inteiro lenhas a fio...não brigo mais.

Os sinais começam a aparecer...

Estamos aprendendo o tempo das coisas..é sempre essa a lição, sempre o tempo e as coisas... há 15 anos vivo no mato e ainda estou aprendendo...em outras palavras, a manha dos dias.

O melhor é deixar o celular e por as mãos em tudo que está aí, a mão dos olhos toca tudo...quando faço isso, a vida volta..e muitos precisam estar pisando na realidade, senão ela des-pesa... desfaz as juntas, fica a toa com os animais só e faltamos nós nos dias... esses dias ausentes são os dias sem arte.


Pesemos pro lado do coração absorto, emocionado com os grilos...tocado pelo chuchu da janela... este não será comido em vão.

Pesar também é bom, nem tudo voa.

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