essa vida está esparramada e ninguém sabe juntar

 

Uma vez escutei, "trepen a los techos"! Hoje serve qualquer banquinho!

Aonde foram os poetas que cantavam por aqui? 

Aonde estão os precipícios reais dessa loucura? Todas as motosserras ligadas, cortando... sonhos! 

Todos os rios estremecidos, gritando "seres humanos, aguaceiem, voltem ao mar" esse instante está cheio de gritos, gritos verdes, essa vida está esparramada e ninguém sabe juntar.

Se foram os que antes beijavam a lua, as que se beijavam nuas, se foram todas, se foram todos para o espaço de uma palma da mão  - e essa palma da mão não é infinita, como a de Gioconda Belli. 

Onde foram os poetas da margem? Não só das ruas, mas da margem campo, miguéis hernandez, onde estão os que vieram dar de beber às plantas e queimar a razão?

Não há espaço mais para o palco vazio e triste, está todo incendiado de memória, está todo pedindo o retorno do comum. 

Chora a vida, porque sabe das alegrias.



Chora o barro porque sabe das mãos, choram as mãos que sabem do barro. 

As roupas não servem para nada a não ser para golpear o frio, mas há muita roupa plástica entre nós, há muitos sorrisos plásticos, há uma exuberância de rapidez, todos os afetos estão estilhaçados, enfiados em um porquinho imaginário em que juntamos nossas economias da escassez, não há mais a volúpia visceral, fomos agarragados, estamos anestesiados por nós mesmos e basta, não vamos culpar mais as máquinas, porque se estão as máquinas, estão os homens e as mulheres que sabem tocar uma flor! - E se estamos presos, estava antes o fogo nas palavras!

É uma barbárie dos sentidos, nos levam os algoritmos e estamos perdidamente apaixonados por eles, perdemos a noção dos amigos, perdemos quem somos, porque o ódio não é um sentimento real hoje em dia, o ódio é uma narrativa colossal, emaranhado  de lesmas sem corpo, metálicas, atrofiando o último respiro humano que são os beijos e os abraços e os sonhos acordados.

Poucos jovens incendeiam a vida,  os jovens estão encarcerados e não sabem nem qual muro pular, isso é um desespero, isso é um voto de nada, não há ninguém que nos acorde, estamos dormidos a pleno meio-dia, estamos perdidos sem saber que estamos no paraíso, estamos no paraíso!


Brasil, América Latina, profundamente nossa, estamos repartidos por migalhas de palavras, enquanto as palavras que valem a pena as abandonamos, as palavras que nos amam as abandonamos, esse mundo está doente e estamos enfiando a faca em nós mesmos, ridiculamente enfermos...

Onde está a chama dos Zé ramalhos, as chamas dos antigos parideros da poesia, estamos presos no discursito, no discursito justito, não há nenhuma coisa que transborde mais além da linha, porque transbordar é feio, estamos opacos, opacos, feios não da imagem, porque a imagem deve estar linda, cheia de iIAs, mas e nós, e nós, nada, senhoras e senhores.


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