Um livro foi lembrado no escuro
No meio da instalação, debaixo do poste da Tatá, estávamos os dois sentados no escuro, esperando a luz.
Era um misto de erupções aquele amontoado de gente. "Não saiam daí enquanto não acenderem as casas" - diziam as mais brabas para os moços que se equilibravam na escada. O bêbado senhor se juntava pra falar com o polaco cansado que só queria que aquilo terminasse. Uma jovem meteu seu carro na estrada e me disse "anda põe o teu também". Os fofoqueiros se juntaram oportunamente para atualizarem as notícias. E a barricada se formou.
Lá estava a vizinhança se dedicando à mitológica luz. Todos averiguavam a causa para essa canseira.
Ainda o milagre tem que ser peleado - disse um profeta.
Antes guardavam pequenas chispas nas aldeias humanas. Agora é assim. Cabos. Quem não vive perto do campo, não sabe essa sensação bíblica de fim dos tempos recorrente... às vezes esperamos uma semana. E quando chegam os trabalhadores da luz, são ovacionados como heróis, biscoitos... E como acontece a todo fadado-a-herói, quando demoram, já começam.. "esses demônios..."
Mas ali sentados no breu, Antônio, o menino da vizinha não se importava muito com a luz e não parava de falar. O tempo ia passando enquanto o via andar para lá e pra cá.
Entre as tantas coisas que a criança contou, veio me dizer:
-Amiga, sabe aquele livro que você me deu? - e eu tinha esquecido totalmente qual era. -Aquele do urubu de peruca. É bem legal né. Começa assim..
E lá foi ele contando e recontando os detalhes, página a página imaginária, que só um expert dedicado saberia.
A mãe se aproximou na penumbra contando que ele ainda não sabe ler mas adora os livros.
Aquilo, dito assim, enquanto via as pernas dos homens escalarem o poste em busca da luz, me deu tanta alegria. Um livro foi lembrado no escuro.
Depois ficamos vendo as estrelas, jogando pedrinhas e falando do ônibus amarelo da escola que passa ali e que ele tem medo de escuro. Não pude explicar a Antônio que nós adultos também, por isso esse aglomerado de gente.
Foram 3 hora esperando. E é no escuro que volta o assombro também. Que tão miraculoso é existir essas coisas como luz elétrica, cabos de alta tensão, vizinhança e crianças que leem.
O dia se tornou das fadas de Antônio ao ver as casinhas das vizinhas se iluminarem. O porco de uma está na geladeira. E ela repetia, "meu porco, meu porco". A outra só contava do bom que é tomar um banho quente, que não quer como antigamente, e a vizinha de longe dizia, ninguém merece voltar pra casa e tomar agua choca.
O ciclone que levou em 2 minutos tetos, árvores fiações, devolvia algumas coisas também. Já estou pensando no próximo livro para emprestar à Antônio para ele ler nos escuros

Comentários
Postar um comentário