Noite com suas perguntas de antes da luz

O amanhecer se oferece

Escuro rasgando 

Se oferece a nenhum deus

é para gente

Renasce sem precedentes, inaugura o que vulgarmente chamamos de

aurora

Sem mácula

talvez algum transeunte curioso tateie o corpo da imensidão

 tome um mate

Esperando 

Mas nesse momento 

esse que espera é também 

inexato

Não responde a seu nome  

Nem a qualquer vocação  


A noite quando avança e já quer nascer quer ser tragada pela luz

quer parir a própria cor, dobras, sem gloria


anônima


Noite com suas perguntas de antes da luz

Todos os big bangs sonhados se hospedam nessas reticencias

anjos  

casos oníricos

memórias calcetadas

Algum desavisado amor 


Meu coração recomeça desde a grandeza e se encolhe quando tudo acorda

Meu coração ainda nem se quer é meu as 4h da manhã 


Aqui nochecita

onde todas as promessas dirão "buen dia"

Aqui onde os amantes recuperam os delírios 

 onde a razão ainda não controla com sua câmeras desesperadas

Útero de todos

A proteção contra a cansativa claridade 

noite para o cambaleante ser humano no caminho de ser humano

Entre bombas de noticias e dopaminas

Entre estrelas mortas

A via láctea volta a beijar suas minúcias 

 

Deus sem todas essas gravidades

Panteón de alegrías, fonte ilícita e santa da luz


a mãe olhando o bebe que dorme  


Mundo fatigado, lua virgem

Como um sexo desconhecido e animal a noite decanta seus amantes

Oferece favores aos que lhe olham ainda

E principalmente, a noite não é

Não faz, negativa o imenso desespero das coisas

Desfaz

Desanda

Desmonta

Serena

Chuvas leves 

Astros passando sem opinião

Enquanto cai a pedaços a forma em seus afãs 

A noite que serve de manto

O poema lhe conhece a seiva

Meu corpo inerte deita querendo voltar a  noites que antecederam o fim dos tempos... não esse fim dos tempos grande e banal  

Mas esse pequeno e angustiado-sem-jeito fim dos tempos do jardim 

das alegrias

Onde eu sabia onde tinha colocado a escova de dente, onde meu pé respondia a certas aspirações e o cabelo sabia das maneiras do vento golpear a casa

Tanta inteirice nos chegou da noite  

Ela é generosa 

esteve não-avisando do que viria

A noite não faz essas coisas que a luz faz

A noite é generosa e brinca matándonos pouco a pouco, 

engendrando a fome da manhã


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