Véspera

 Dez de 2023








Falta apenas nós agora. 








Todos já se viram. Todos fios soltos já fizeram seu laço. Falta apenas nós. Estou emocionada. Sentada na sua cadeira, vendo seus envelopes de contas para pagar, com esse nome e esse idioma que desconheço... como você. Os livros em português que juntaste ao longo dos anos para falar um dia como nosso mundo, esse que deixaste para trás... Mas que querias uma ponte. 




Que dor deves sentir desse dia. Depois ter que deixá-la. Tudo tão....  Quantas imaginações já tive desses pedaços de histórias. Encontrar você é fazer as pazes com o invisível que nos acompanhou todos esses anos. 




Seu piano está quieto, nem sei se tocas. Mas amas a música. Eu queria ver a emoção trêmula que te saía quando compravas todos esses panetones e geleias para nos esperar. E preferiste deixar o vazio aqui no apartamento de Alexander...sua cama vazia.  A casa colorida como um conto - de fadas -, para que entrássemos primeiro nesse mundo, seus pegadas, tudo em ordem e bondoso, os lápis, os CDs de Mozart, o telar mexicano... Abajures por tudo, a luz sempre indireta como predico e não me creem que é linda...os quadros de vênus, a deusa.... Parecia que vivias aqui emanando uma pintura para lá... onde estávamos.




Abri seus álbum sem pedir licença para ver de ti antes que me contes, para quando contes amanhã eu possa ver sua cara de nostálgica ausência...e tua ternura pela Mica. A segunda filha. A filha que todos nós amamos porque é teu recomeço.




Minha mãe fala sem parar hoje, está feliz com as cores, não sei se ela alcança sentir que passa entre todas nós, essa dimensão que não sei explicar, estaremos todas juntas finalmente, as pontas atadas, um laço de Natal, para quem será esse presente?




Se não tiver um piano triste, e só essa alegria da minha mãe não estaremos ali. Há uma melancolia com essa neve, há um alvoroço em meu peito. 




Como não nos contaram nada de você?




Meu avô sempre escondeu tudo, sempre falou silêncios brutos e de plantas ou compras... Sorria às vezes para os cachorros feios que tinha, mas não nos dava nada, nem uma pista de ti. Eu queria poder ser salva daquilo que vivemos atrás. Voltar atrás e dizer para minha mãe que no futuro tudo ia se desatar, como hoje, que toda espera terminará em Natal. Seguirão trazendo paz, a paz existe.... não tem emoção exata pra isso...




O retorno nosso...retorno a que?




Nunca viveremos como família, mas nossa cumplicidade é saber que amamos certas coisas mínimas parecidas...  Temos a vontade pela pimenta, pelas índias, pelo piano, pela espiritualidade que vejo em seus livros... Estivemos nos amando sem saber, sem intuir, sem nada. Seu segundo casamento que durou o tempo para viveres alguma paz enfim. E eu vivi longe, como meu tio, teu filho segundo, que andou pelas ruas todas, e becos,  atrás de que? de desatar todos os nós? 




Andávamos todos nos buscando? Não sei....




Não fechará o ciclo mais profundo, todos sabemos da insatisfação que seguirá, mas essa tarde que cozinharás um ganso que nunca comi, verei também a você que nunca vi, não é só você. Verei a nós. Que nascerá depois de uma trama de ausências, palavras, de mentiras, nascerá de repente uma neta em mim, e a vó que faltava em ti....




Quem sabe nos reconheceremos como você me escreveu: "Somos parecidas, você é a neta mais parecida comigo"...




O que a vida guardou em nós e revelará amanhã.




Não entenderam hoje que eu disse que não queria passear. Queria ficar aqui na sua casa, cheirando o cheiro por detrás do tempo. A neve, deixa tudo desimportante lá fora,  o que está dentro como um vulcão arde. Já toquei o piano, como que inventando musicas nostálgicas. Não sei tocar nada.




Escrevo agora, para depois unir com o depois e não perder a angústia que sinto, de não saber como meu peito vai unir-se ao teu e te perdoar por nada, mas dar algo que buscas. Que talvez minha mãe não pode te dar...porque é imensa a emoção desses anos, talvez faltassem mais palavras e melhores para esse momento, talvez faltem muitas conversas e viagens e decantar do tempo. 






Eu imagino apenas, e imaginar não basta. Não sei mais que imaginar. Demorou tanto tempo para que deixassem esse encontro acontecer, tantas barreiras, que é quase conquistar um amor impossível. Um romance dos que se buscam sem tempo, e é a vida que insiste em juntar-nos, e vão a bibliotecas se refugiar da dor. Como fizeste.. Eu até escrevi um livro, para que você organizasse nas prateleiras, para que leias a vida que escolhi viver, longe de todos que não entendem o que é amar demais essa vida e lutar contra a justiça... 




Escrevi resistindo a viver na mediocridade e a mentira que nos impõe o mundo...








Ao redor vejo tantas conversas frias. Os pobres, os que sofreram não merecem essas conversas. Eu espero que você sinta a dor da vida, e que possamos nos reconhecer nisso.. Me sinto órfã...toda minha vida pensei " ninguém na minha família tem essa ganas de mudar o mundo assim..."...da onde vem essa raiz?








Amanhã veremos o que nem sei, viajaremos uma hora na neve. Estou muito emocionada. Seguro o choro para que não vejam... Mas eu queria chorar por todos esses anos e xingar também. Mas agora é tempo dessa calefação dessa sua casa... Essa quentura... aceitar de algum modo.... aceitar e encontrar e destroçar, exorcizar de vez os enganos.

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