Rosinha
Em algum lugar da galáxia carioca, em alguma porta da barreira do Vasco, em algum dos barracos, o único rosa, sem dúvida o único e todo rosa, com fogão de duas bocas rosa, a cama, as roupas, o armário, as maçanetas, os garfos e espelhos rosas... ali vivia Rosinha.
Alguns diziam que, na verdade, viviam duas pessoas no pequeno e insólito barraco: Almir e Rosinha. Mas a travesti morava sozinha.
Ela recebia gente de toda cidade pra fumar maconha à vontade. Nos 70, ainda não tinha chegado no morro a peste da cocaína, então reinava a tranquilidade da casa rosada. Era um tempo de brisas... boatos, notícias imprecisas, erva ainda boa, pouca tecnologia, delírios cromáticos. Ninguém sabia bem os limites de onde começava e onde terminava Rosinha.
Duvidavam que o enfermeiro Almir pudesse ser o que a razão indicava.
O pobre saia cedo de casa, todo penteadinho, de polo e sapatos engrachados. Fazia doble turno no hospital e voltava para casa com pacotes de remédios para Rosinha fazer a missão de distribuí-los pela redondeza...
Entre 4 paredes rosas, fumos e amores, a travesti Rosinha se inteirava das dores do morro e Almir corria para conseguir internação, médicos especiais, remédios caros para saná-las..
Não demorou para espalhar a notícia que no barraco rosa havia uma pessoa tão boa...mas tão boa que era estranho que fosse... travesti - diziam alguns religiosos.
Mas até as mais recatadas a elogiavam, só não se davam permissão de entrar em sua casa. "Era era linda, mas era o antro da maconha e outras coisas, você sabe".
Rosinha sabia - "a casa do amor sempre será para os corajosos" - e soprava a fumaça com sua voz sensual. Então ela fazia o favor de visitar os vizinhos de porta em porta e espalhar sua bençãos sem esperar nada em troca...
Foi amada e protegida pelos chefes da Barreira.
Quando homens a atormentavam na rua, sempre aparecia alguem pra lhe proteger. Um brasil inteiro merecia esse cuidado.
Morreu velinha. Em sua casa rosa. Depois de dar amor...e de tantas maneiras. Rosinha.

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