delírio com ofurô

Andando pelo jardim vi um recipiente com água, feito de material puro: barro, terra, bambu, madeira... como quem vê um miragem, desejos que antecedem os desejos

talhado na pedra, seria ainda melhor.... Tipón...  

Mas quieto... o receptáculo puro, a pedra côncava, como mãos gordas minerais segurando a fonte pura

um ganges embocando o yoni..

yakumanka...

um micvá ..  súplica para a purificação 

como uma fogueira que se converte vela em um lar,  titicaca em um olho dágua no jardim... 


eu colocaria meus pés. não, são tão sujos

queria poder colocar as mãos pelo menos e que a água se mantivesse translúcida 


ia lavar o rosto pela manhã, depois acender a vela à noite e descansar do mugre que agarra o mais delicado dentro.. 

essas coisas que perpassam enquanto afora as notícias passam

me critico, como se não tivesse algo tão importante na vida, um ofurô!

essa vida que emprenha de sensações irracionais

tão inexplicável e a obedeço

fecho os olhos e me vem o pote de barro... imenso e côncavo... entrar e ficar alí, na baleia terrenal, eu e o mundo e o tateio aquífero...

nos Andes, quando as pessoas morriam, eram enterradas assim, em cerâmicas, devo querer a morte como se quer a vida 

pensei extravagâncias também, a ideia dourada de encher o cuenco com mel, imaginei um banho de mel, e abrir os olhos lá dentro e encontrar um tesouro perdido

mas não sou dessa nobreza de gente, a água basta, é de água quente e estrelas no céu que essa visão é delineada..

 o vaso, o copo, o graal, y'uha,  o qero mais insignificante, a taça com a vida, o ninho onde pousa o bebe, a boca da noite, esperando o bico do primeiro raio de luz 

talvez tantas dores guardadas nessa invocação. 

um ritual onde as musas voltariam a exalar a Beleza, a pele húmida e fraternal... ah minha devoção às queridas ninfas de todos os bosques e suas águas 

se noé tinha sua arca, delírio com o ofurô...

uma canoa vai pelos rio com suas tabuas perfeitas, uma superfície perfeita talhada pelo artesão que não traiu suas mãos, curvilínea, nenhuma gota entra ou sai... o tecido maternal feito fora da barriga amadeirado, criação humana

uma alma cansada.. falta tanto pra dor da alma acalmar... repousa meus sonhos nas águas termais de todos los cuencos del sur...

a vida por sorte tem dessas banheiras naturais... onde vamos para renascer 

o japonês inventou a palavra OFURO, onde Furo é banheira....e O significa algo honrado.. A pessoa entra e então a madeira e a água quente entram em contato com a pele e essa mistura é a seiva da vida..

Não estou cansada, estou esperando um banho ritual mais antigo que eu, estou em busca desse banho noturno, onde se renasce depois de uma arrastada morte.



 

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