en llamas
"En llamas, en otoños incendiados,
arde a veces mi corazón,
puro y solo. El viento lo despierta,
toca su centro y lo suspende
en luz que sonríe para nadie:
¡cuánta belleza suelta!"
Octavio Paz
Dessa vez ele estava carregado de malas, parecia de mudança e brincando disse que havia sido expulso da universidade que estava. "Vai lá com sua gente,me disseram, vai! E aí vim". Vi que somos sua gente, carregamos sua mala até a habitação, deixamos essa flor branca lhe esperando. Ele entrou na casa de maneira mansa, sem ir direto, sem ansiedade. Lento e delicado. Falei do mate, que logo íamos tomar um bom. Aquela risada, a casa se enchendo de cordialidade dos que chegam, dos que se recebem e afirmam esse algo, que existe no meio de nós.
Entrou na casinha mas já saiu pra fora, sentou com o verde. Olhou ao redor, seu sorriso clareava sua pele escura. Brincávamos elogiando sua elegância típica. O chapéu, a camisa florida que o faz lembrar um sambista, mas apesar de fevereiro e da alegria e axé que tem, nosso amigo se encaminha sem pressa para ser um padre.
Toda vez que o vejo, vejo sua vocação, fala com leveza, usa pouco as palavras divinas, não prega, além da vida justa. Disse a ele que nos avise onde acontecerá sua missa.
Depois passeamos pela horta, tomamos mate vendo o amendoim, conversamos com os vizinhos sobre o tempo, sobre a colheita, a lua boa para isso e aquilo, o problema das galinhas rengueadas, a necessidade dos agricultores estarem juntos...essas coisas, sempre uma risada mansa e nosso amigo, pisando em plumas, dessas pessoas que veem onde estão, percebem, e o lugar parece os encontrar intimamente.
A cachorrinha que é doce subia nele atrás do que ele tinha quando falava.
Contou tanta história, que a noite passou e terminamos dentro da casa comendo e trovando as inúmeras aventuras que o campo e a luta dão.
A última peregrinação, a dificuldade do transporte pras crianças do mst, as linguiças e mortadelas e comidas rápidas e ele preocupado com saúde e preguiça de alguns amigos. A dona zilda com mais de 100 anos que sabe viver, que os médicos não encontram nada, só o que o tempo traz. A dona Elen mulher do reinaldo, o reinaldo que controla ela mas não conseguiu quando ela dançou. As flores da vizinha e como o pátio foi se enchendo de árvores e atraia muitas visitas. O casal de vizinhos que agora querem ir a missa com ele, as crianças que quando o veem chegar correm pra pedir algum afeto. Os parentes que o perseguem por usar camisetas vermelhas e falar de agroecologia. O racismo que passam na escola essa, aquela. Um alho a cada manhã. "Isso aprendi com a professora!" Sonhar, viajar. A importância de ficar um tempo quando se vai visitar um amigo, colher com ele, aprender. A cacique guarani que o emocionou por pedir abraço num encontro e nesse momento as lágrimas encheram seus olhos. Ele disse ainda que precisava de uma boa noite de sono e vinha nos ver pra renovar as energias e a esperança.
Assim aconteceu com a gente. Nossos heróis são os mesmos... Lembrei o que um antigo amigo me falou uma vez sobre Latinoamérica. "não se iluda, latinoamérica de alpargatas é toda cristã. Cristo está mesclado em todas as casas, cada viejita ora por taitacha".
Em seus modos, eu ia tomando um banho sereno do que chamamos de honra. Nenhum problema era um polo do mal, todos eram humanos errando como ele. A natureza era sagrada, cada fé bela. Só não aceitava a ignorância das Fake News e os que era ofensivos. Havia tanta misericórdia entre as falas que iam nos elevando, sonhamos com coisas novas saindo desse sentimento coletivo, a esperança vem dessa misericórdia comprometida. Talvez...
Os assuntos políticos iam e vinham, mas eram sempre a parte externa de algo de fundo, era questão de pouco sonho ou muito sonho; vida ardente, arte cultura ou miséria, individualismo, pobreza de espírito... as conversas eram essa preocupação...Precisamos estar com o fogo da alma aceso!
Falamos também da dor de perder os pares, os companheiros...
No dia seguinte fez um bom mate, e ele sabia tudo da terra que nos acolhe. Aprendemos sem perceber, a terra dá.
Nosso amigo humilde, desses que a vida o chamará de santo, pela sua andarilhagem de casa em casa. As trincheiras de hoje em dia, íntimas, acontecem de lar em lar.
Disse que sentiu de nos visitar, e ao final deixei ele na estrada para tomar o onibus e completou que tudo vai ficar bem.
Esse tudo é tão grande, que ver ele rodeado de malas, tranquilo, esperando vir a velha condução rumo ao campo adentro, me acalmou. Ele segue indo campo adentro.
Fizemos a eucaristia na troca de olhares, nessa igreja bela dos corações en llamas.

Comentários
Postar um comentário