Breve
- O eu está fora de moda. - Disse a Sombra da Árvore quando fazia luar.
- Sim. Sempre guardei nas palavras os esconderijos. Ali, onde todos nos reencontramos.
*
Quando brincava de pega-esconde na infância, não gostava de ter que pegar alguém. A gente ia de noite, depois do jantar. Era péssima correndo. Nunca conseguia fugir. Minhas pernas eram gordinhas e lentas. As meninas rápidas sabiam e me escolhiam antes das outras.
Então um dia, resolvi me jogar no chão da grama do sítio. E a partir de então foi assim. Ficava bem rente, bem sem medo. Não sentia medo, porque em brincadeiras nada de mal acontece. No máximo arranhões. Acho que se andasse normalmente pela noite estaria cheia de pensamentos, tinha 9 anos. Mas ali eu ficava. Quieta. Era a última a ser encontrada muitas vezes. Ficava respirando com a terra, sentindo-me livre e parte da noite.
O menino que eu gostava, uma vez, também fugindo, me pisou. Eu achei engraçado ele tropeçar e eu ser a Terra e noturna.
Depois eu tinha que tentar salvar todo mundo. Saía. Ia deslizando nas beiras e quando chegava na casinha de boneca onde ficavam os presos, pumba! Lá vinha as menina gazela. E eu era presa. Nunca conseguia salvar o mundo.
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O esconderijo mais bonito é esse que protege uma porta, e essa porta passam pequenos a caminho de um jardim.

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