Becos para casa

 


Estou perto de casa,


devem ser esses barcos na beira do rio.


Nas mãos da mulher que lava a roupa no chão


há um buraco


Na cidade velha tomada de buzinas


há um tempo


No senhor que me oferece café


há um relâmpago


como se me entregassem uma metáfora


sem revelações


O ar quente me humilha


o Ganga se mete em meus sonhos,


me mostra que debaixo d'água


há um homem meditando entre corpos



Em minha frente um Ganesha espera...


a imensa estátua na cozinha


acompanha imóvel todos nós



Varanasi com as últimas barcas para casa


O japamala se desenrola na minha mão como uma cobra mais antiga que o mundo


toco suas pérolas de madeira,


buscando a porta


Vou pelo beco, oro com as mãos,


runa a runa


busco Deus... essa nostálgica penumbra,


casa de estranha entrada,


um senhor passa


O terrível abandonado me olha desde


todos os lados


- É justo aqui!


O brilho do opaco


é justo aqui


a aura que só existe nos escombros


é justo aqui onde não há... e me entrego


sem relatos


sem nada pra perdurar

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