Poesia até manchar-se
Sempre há pontos de vistas, nuances nos enredos. Mas se, em absoluto, ninguém é juiz da vida, todos padecemos dela, sentimos desde o que nos afeta. E escolho Facundo Cabral quando canta: me gusta la gente simples que llama vino al vino, pan al pan y enemigo al enemigo.
Esse tema é um susto, uma pergunta, uma plegaria doída no peito quando encarna os dias.
Houve tantos exemplos na história humana, e na vida, nos dias comuns, há milhares...
Judas com Jesus, Malinche com os Astecas, Joaquim Silvério dos Reis com Tiradentes, Francisco Santa Cruz com Tupac amaru, Cabo Anselmo que entregou amigos na ditadura de 64, Elas Fanta, no chile...
E diante das encruzilhadas, admiro a impressionante honra do companheirismo dos anos 60, 70...Quantos morreram com eletrochoque na ditadura para não entregar endereços.
Apesar da dor desses eventos, o amor se mantém pelos dias de sol. Não é nada de outro mundo, o próprio coração pede um invencível perdão..O recuerdo da Era dos pássaros, dos niños, que sobrevive a Era das calúnias e choques.
Se é a dor mais ardida. É porque é a menos esperada. Porém não entrega o fruto da amizade, quem guarda fresco seu fruto em uma gruta do peito. Não podem levar o poema da irmandade se há um coração ardendo. Só de um que esfriou.
O poema "No te salves" de Benedetti fala tudo dos ultimos instantes de la tiniebla. E o fim dele não é uma renúncia ao amor. Mas uma separação para preservar as profundezas.
A visão entranhada permanece, e ecoa uma música nos que veem seus amigos partirem... "estive detrás de cada vontade encoberta"
Os que pensam em Judas como vítima, lúcido, rebelde, oportunista, realista... prefiro os que não lavam as mãos e não evadem.
E essa poesia de gabriel celaya fecha o tema.
"(...)Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam
dizer que somos quem somos,nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.
Estamos a tocar o fundo.
Maldigo a poesia concebida como um luxo cultural pelos neutrais
que lavando as mãos, se desinteressam e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.
Faço minhas as faltas.
e canto ao respirar.
Canto, canto, e a cantar para além de minhas mágoas
pessoais, fico maior.
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